[momento lexotan] i’m so tired

Ontem, mais 24 horas de banco. E mais um banco mau, mauzinho.

A tristeza de entrar no serviço de urgência às oito horas da manhã e ser rodeado por um cenário de inferno. Macas e mais macas. Doentes a respirar para cima de outros doentes. Senhoras ao lado de homens. Uma doente internada no chão porque as macas disponíveis tinham acabado. Demorámos uma eternidade a passar o banco. A passagem de banco é o momento em que a equipa que está a sair passa à equipa que entra todas as informações relativas aos doentes que se encontram internados.

Depois vem o pequeno-almoço. Um convívio curto entre as duas equipas. Também nesta altura a chefe de equipa divide os doentres internados por todos os elementos da equipa. Nove doentes a cada um. Nove é muito. É preciso falar com cada um deles, observá-los, fazer a folha de terapêutica para aquele dia, ver as análises e pedir os exames necessários. Nove vezes. Este processo é interrompido com pedidos de observação dos balcões, homens e mulheres, onde os médicos que fazem o atendimento inicial nos pedem a nossa opinião.

Acabei de ver os doentes da manhã a meio da tarde. E então começamos a internar os doentes que ficaram pendentes. Fazemos também as transferências para os serviços de doentes que já se encontram estáveis, isto se houver vagas. Tudo isto dura até ao jantar.

A partir deste momento, faz-se a diferença entre um banco bom e um banco mau. No banco bom, há internamentos pontuais, que se fazem com calma, com tempo para pensar. No banco mau, os internamentos acumulam-se até horas impróprias em que a cabeça tomba sobre os papéis, em que os bocejos são de minuto a minuto.

Ontem foi um banco mau. Ontem acabámos todos, desde internos a chefes, de avaliar doentes às 4 horas da manhã. Um doente em choque séptico deu-nos especial trabalho. Logo a seguir, um edema pulmonar agudo em que não conseguíamos baixar a tensão arterial de maneira nenhuma. Quando finalmente estendi as pernas, tocou imediatamente o telefone. Uma doente internada na pneumologia tinha caído ao tentar levantar-se e tinha a cara ferida. Subi três pisos para constatar que era mais aparato do que estragos.

Dormi duas horas e meia. Acordei com o despertador do telemóvel, desorientado. Demoro sempre a perceber onde estou, numa escuridão que não me parece a minha casa. Tempo ainda para uma reanimação, um velhote que tinha vomitado e engasgado, entrando em paragem respiratória. Resolveu-se.

Agora é a nossa vez de passar o banco à equipa que vem. É a nossa vez de parecer desgrenhados e pouco acordados, mesmo assim com um ar mais feliz do que os outros. Voltamos ao pequeno almoço e depois para a enfermaria. E esta é a parte que custa mais. Sentir que está a começar um novo dia, apesar de para nós já ser o segundo.

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7 comentários

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7 responses to “[momento lexotan] i’m so tired

  1. E no meio de tudo isso teres que continuar a sentir. A tua vida e a dos outros. Esse para mim deve ser o maior desafio de um médico. Não se tornar imune e insensível ao doente, nem aos que o rodeiam.
    Tenta sempre agarrar-te a este pensamento: Entre sofrimento, burocracia, maus cheiros, 24 horas de tortura do sono e tanto, tanto mais, não deixas de ter a profissão mais nobre do mundo!
    Boa Sorte!

  2. Maria

    Adoro ler-te.

  3. às quando estamos cansadas e ligamos para vocês impacientes por causa do doente da cama tal, que descompensou não sei porquê e que vocês (médicos) não aparecem logo, deviamos lembrar-nos disto..nós (enfermeiros) trabalhamos muito, mas vocês não nos ficam atrás…

  4. Boa tarde Dr. passando por aqui não posso deixar de elogiar tanto trabalho e a forma “ainda” humana com que exerce a sua profissão. Quando recorri por algumas vezes aos S.U senti muita distância médico/doente e aquela suspeição “mas que diacho está aqui esta pessoa a fazer às 4h manhã, não era melhor estar a dormir?”
    Depois da suspeição davam-me razão de me ter dirigido lá.
    No entanto deixou-me certas marcas que me fizeram afastar o mais possível dos hospitais exactamente pelo mau humor de quem acorda pelo mau estar do assoberbamento de trabalho excessivo que os médicos têm de enfrentar todos os dias. Fui casada com um e sei o que isso é, mas não deixe de ser humano sempre que o consiga pois terá muito mais valor ser tratado de “Meu menino” do que Sr.DR.X, será o seu lugarzinho no céu.
    Boa continuação linkei o blog para não o perder de vista.
    Luisa B

  5. Adorei este “banco”! Apesar de ter sido mau, muito mau…
    Adorava quando era miúda ir levar a minha mãe ao banco, era um orgulho dar um beijo de despedida na mãmã (afinal só dali a 24 h é que a iriamos ver – e sempre adorei o cheiro a éter que tinha na bata) e ser apresentada aos colegas (quando havia tempo para isso) como a filha mais nova. Sempre me fascinaram os hopitais, posso dizer que não tenho medo de nenhum e estou sempre à vontade em qualquer um! Muito boas recordações!
    É a descrição mais humana de banco que alguma vez li. Se eu já respeitava muito os médicos e enfermeiros pela profissão que têm, ainda fiquei a ser mais compreensiva com as más disposições (embora não todas) com que por vezes nos cruzamos nos hospitais!
    Coragem para o próximo banco!

  6. Ana

    Nunca percebi por que é que os médicos são a única profissão no mundo que trabalha 24h seguidas e ainda prolongam a jornada no dia seguinte… os enfermeiros fazem turnos de 6h, 8h, max 12 horas, até os auxiliares fazem folgas mais frequentemente que os medicos… os empregados do bar têm o seu horario mais respeitado que os medicos… os trabalhadores das portagens ou os seguranças não fazem mais de x horas seguidas porque não aguentam… os medicos são flexiveis, veêm 2 doentes, 4 , 6, 12, 20, 30 , 40, os que forem precisos… esticam sempre. É exactamente a profissão com maior responsabilidade, que lida com a vida em situação aguda, de stress intenso, a que têm o horário de trabalho mais desconcertante! Isto não é vida para ninguém… os doentes agradecem e vão à sua vida, e ainda reclama por cima porque tu estavas mal disposto ou não lhe deram o pequeno almoço a horas… os comentadores do blog apoiam-te e admiram-te mas se fossem eles os requisitados não estariam disponiveis… toda a gente te dá uma palmadinha nas costas de força, mas vão todos para casa à noite e aos fins de semana e tu vais para a urgencia, semanas, meses, anos… uma vida inteira. Será que nós, médicos, merecemos isto?

  7. chacommel

    São sem dúvida estas suas descrições que me motivam neste início tão atribulado deste sonho que é um dia ser médica, ser útil. Incrivelmente o seu blog não podia ter aparecido em melhor altura, irei começar o meu estágio do 1º ano em medicina e escolhi medicina interna, porque tal como ja mencionou um dia, eu também não seria capaz de ficar o resto da minha vida a olhar só para olhos, ou só para pele ou só para dentes. Quero ter a consciência de que é mesmo medicina interna que me completa, porque por muitas vezes já ouvi dizer que estou a ser pateta, que vou trabalhar como uma escrava e que não vou ganhar tão bem como merecia. Já gravei este seu blog, tenciono vir espreita-lo regularmente. Parabéns.

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