Monthly Archives: Janeiro 2009

[história clínica] o bom e o mau

Vi-a mal na enfermaria. Tinha lá sido chamado para a observar porque tinha febre e estava prostrada. Diagnostiquei-lhe uma sépsis e foi começado antibiótico adequado. Dez dias depois, por coincidência, fui de novo chamado para a ver. Não porque estava mal, mas porque se achou que estava tão bem que já não precisava de toda aquela medicação.

Estava, de facto, muito bem. Conversava comigo, disse-me que não se lembrava de nada mas que sim, que estava óptima. Queria conversar e recuperar o tempo perdido. Retirou-se o catéter venoso central, parou-se o antibiótico, pensei que os meus colegas lhe iriam dar alta brevemente.

Mas o mal voltou. Desta vez, mais implacável. Em forma de choque séptico. Febre, tensões arteriais não mensuráveis, urina nada. A estaca zero. Tudo foi recomeçado. Os antibióticos, novo catéter, fármacos potentes. Disse a todos que aquela era uma doente que merecia tudo. Uma doente com toda a vontade de viver possível.

Morreu-me ontem, após uma hora de reanimação com direito a desfibrilhação, os meus braços a latejar e a testa coberta de suor. Foi tudo comigo, o bom e o mau. Tinha que se despedir ao pé de mim, também. E eu demorei-me a despedir dela. No silêncio da desistência de uma reanimação, demorei-me a olhar para ela.

Raras vezes uma morte me custou tanto. Agora vou para casa, depois de 24 horas na urgência. As últimas dela.

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[história clínica] a vida, para variar

Agrada-me quando a conversa com o doente passa da trivialidade clínica

[como é que se sente hoje? está melhor? ainda tem falta de ar?]

e resvala para a vida propriamente dita. Nem sempre se tem tempo para a conversa. Mas às vezes consegue-se falar dos filhos, da infância, de futebol e de como fazer favas guisadas com entrecosto. E isto assume-se como um acto terapêutico. Vejo os seus olhos brilharem mais um bocadinho e acabam a conversa com um rosto mais feliz do que a começaram.

E eu fico a saber como se fazem as ditas favas.

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[raio x] chuva

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E estes são os dias que me agradam. No inverno, são estes os dias que pertencem.

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[história clínica] trinta e nove e meio

“Minha senhora, se não quer levar a sua mãe para casa, por mim tudo bem. Juro que não me chateio. Eu, que sou médico, acho tenho a certeza que ela está bem. E, sejamos honestos, assim que a sua mãe tiver alta, põem-me cá outra doente vinda da urgência. É certinho. E tenho que começar tudo de novo numa doente que nem sequer conheço. Agora, peço-lhe uma coisa. Pela sua saúde, não traga a merda do termómetro de casa, e não o ponha em cima do radiador da enfemaria ou dentro do chá da sua mãe, nem me venha exibir o mostrador em frente dos olhos

[trinta e nove e meio, doutor… está a arder em febre, não lhe vai dar alta assim, pois não]

porque a enfermeira mediu agora mesmo a temperatura e tinha trinta e seis e quatro. E, pela sua saúde, não faça um risco na fralda da sua mãe porque desconfia que as nossas auxiliares não a mudam. Garanto-lhe que é gente trabalhadora e o hospital não as poupa. E não me diga que ela não tinha escaras antes de vir para o hospital e que fazia a sua vidinha porque eu sei que não era assim. E acima de tudo, peço-lhe para não falar mal de mim nas minhas costas porque eu sei que o faz. E já agora, diga ao seu marido que não é bonito chamar arrogante e estúpido a ninguém, incluindo os médicos.”

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[estetoscópio] 1001 canções que têm que ouvir antes que seja tarde (13)

13. CocoRosie – Not For Sale

Canções pequeninas mas que têm lá tudo para me deixar feliz.

you can leave me on the corner where you found me I’m not for sale anymore

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[história clínica] nunca me vou habituar

Tenho medo de dar a notícia da morte. Fico nervoso. Nunca sei o que esperar do outro lado. Tenho medo de ter vontade de rir, porque quando estou nervoso dá-me para isso. Tenho medo que me não saiam as palavras certas, as palavras adequadas.

[Está ali a família do senhor que morreu, doutor. Eles ainda não sabem de nada.]

Nunca sei se me vão acusar de não ter feito tudo o que devia. Se me vão apontar o dedo à minha capacidade profissional, à minha juventude. Nunca sei se querem conforto ou distância.

Respiro fundo e aproximo-me com uma cara fechada. Cumprimento as pessoas e pergunto-lhes se me querem acompanhar até a uma sala para falarmos. Por esta altura já a maior parte dos familiares perceberam o que se passou. As mãos suam-me, o olhar meio vago. Nunca sei como começar esta conversa, ir directo ou com rodeios.

[O seu pai estava muito mal. Nunca o conseguimos estabilizar.]

[Tinha vindo a piorar há alguns dias.]

O pior é quando a idade era pouca. Ou quando não era esperado, quando ele até era saudável. A imprevisibilidade da situação. O inesperado.

O que se segue não pode ser previsto. Já vi indiferença, raiva, pânico. Já vi compreensão, alívio. Nunca é igual. Já abraçei desconhecidos, já os confortei. Já ouvi berrarem-me aos ouvidos contra mim, contra os médicos, contra o hospital. Já os deixei libertar toda a raiva. Já lhes dei copinhos de água com açúcar, ou com diazepam.

Só sei que nunca me vou habituar.

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[videoscopia] benjamin button

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Ontem. Cinema cheio, público adulto, atento, silencioso, sem brilhos de telemóvel na plateia. O cinema como eu dele gosto e que já se vai tornando raro. Do filme, uma história deliciosa, original, que se recomenda.

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