[história clínica] o pior de tudo

O pior de tudo é quando a vida acaba aos poucos, como eu vejo por aqui todos os dias. Mais uma infecção, mais um avc, mais antibiótico, mais um tac. Mais alguma coisa que não leva a lado nenhum. Nenhum.

O pior de tudo é quando se desce um degrau de cada vez, e às vezes a escadaria é enorme. Mais uma escara que não fecha, mais um braço que não mexe, mais uma boca que fica ao lado, mais um filho que não se reconhece.

O pior de tudo é assistir a tudo isto. Caras que se conhecem de bancos passados, caras que voltamos a ver, mais enrugadas, mais suplicantes, mais noutro lado que não aqui, connosco.

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9 comentários

Filed under história clínica

9 responses to “[história clínica] o pior de tudo

  1. Verdade, crua verdade. E agora pergunto: não deveriam ter essas pessoas, que descem a penosa escadaria para a morte, um lugar mais confortável, com melhores condições, no fundo mais digno do que numa qualquer maca de um banco de urgência? Se calhar…

  2. cb

    Infelizmente, é cada vez mais a realidade das nossas enfermarias e do serviço de urgência. Concordo plenamente com o que foi dito no comentário anterior. E mais, será que não estamos por vezes a prolongar uma vida sem qualidade?! Será que por vezes a atitude mais correcta não é “não fazer”?! Prolongar a vida dos doentes, sim, mas com alguma qualidade senão cairemos no erro de prolongar sofrimento.

  3. emilia

    Pois é, é a tal história de passarmos horas a correr enquanto trabalhamos (correr é a palavra exacta) e chegarmos ao fim e perguntarmos:Para que? Para beneficio de quem?
    Quanto mais não valia uma analgesia a sério para as dores que as escaras e as artroses provocam, uma cama quentinha, muito mimo, em vez de monitores a apitar, 5 ou 6 tentativas de punções venosas em veias que teimam em não se deixar ver, cateteres centrais, SNG para fazer reforço hidrico, algalias para que se consiga avaliar o débito urinário e cereja no topo do bolo: uma contenção física ao leito (ou seja ter os braços amarrados à cama) para que, se por algum momento aquela pessoa pensar em arrancar todo aquele arsenal e acabar com esta morte, em que a primeira coisa a morrer é a dignidade, nós, os profissionais de saúde, termos a certeza que não o conseguirá fazer!

  4. Cuidados Paliativos, é a minha resposta para tanta coisa, mas tanta…
    Força, não desanimes. Há-de haver outros casos que compensem os menos gratificantes. (ou não?)

  5. inês

    A obstinação terapêutica, as medidas defensivas, a moda da negligência médica a abrir telejornais, o nosso povo que sabe tudo e tudo exige aos médicos como se eles não tivessem limites. Os familiares arrogantes, os eternos casos sociais, a velhice irremediável que invade todos os espaços e recursos dos hospitais, os médicos exaustos. É isto a medicina hospitalar hoje em Portugal. Desoladora, esgotante, frustrante. De uma enorme violência emocional e psicológica a troco de cada vez menos.

  6. emilia

    Todos sabem tudo, todos apontam o seu dedo acusador ao mesmo tempo que não querem e/ou não podem levar os seus idosos para casa. A vida não está fácil e o que fazer quando é preciso ir trabalhar e se tem a cargo o pai ou a mão completamente dependentes a precisar de cuidados 24 horas por dia? Não há apoios sociais, não estamos preparados para tão grande longevidade principalmente quando esta é feita de dependência, do lento descer da escadaria… A velhice hoje é muito triste.

  7. drsurfer

    Tentei ir ao teu blog antigo para te colocar aqui o post sobre a razao pela qual escolheste medicina interna….lembro-me de falares em algo do estilo de amor à arte e porque ai em Cascais estavam 2 amigos bons…acho que não era má ideia pensar nisso nestas alturas….acho que o segredo para não ir-se a baixo é para o trabalho e não pensar que vamos mudar nada ou que nada vai estar diferente…porque depois tudo o que acontecer e fugir um pouco à regra vai ser motivo de satisfação….nem que seja aqueles 30 minutos de almoço com os colegas a falar de coisas completamente normais….ou que às 3h30 da manhã, enquanto sussurras, entre as 40 e tal macas apinhadas do garcia de orta e a olhar para os monitores do SO, a colega com quem falas mande um espirro do tamanho do mundo e diga uma doente de uma dessas macas “Ves….ves…..também tu já estás apanhada…..”. Pelo menos lá te vais rindo com alguma coisa durante uns tempos…..Força ai pá.

  8. ” When to stop” – (a cadeira que não nos dão na faculdade….) Beijinhos!

  9. É uma morte triste, longa e triste a dos nossos velhotes. E pelo que descreves também as urgências dos hospitais estão a morrer juntamente com a dignidade dos seus utentes e a moral dos seus profissionais. A frase enquanto há vida há esperança, aqui, deixa de fazer sentido. Melhores dias virão, aqueles em que consegues driblar a morte longa e triste, o definhar.

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