[história clínica] nunca me vou habituar

Tenho medo de dar a notícia da morte. Fico nervoso. Nunca sei o que esperar do outro lado. Tenho medo de ter vontade de rir, porque quando estou nervoso dá-me para isso. Tenho medo que me não saiam as palavras certas, as palavras adequadas.

[Está ali a família do senhor que morreu, doutor. Eles ainda não sabem de nada.]

Nunca sei se me vão acusar de não ter feito tudo o que devia. Se me vão apontar o dedo à minha capacidade profissional, à minha juventude. Nunca sei se querem conforto ou distância.

Respiro fundo e aproximo-me com uma cara fechada. Cumprimento as pessoas e pergunto-lhes se me querem acompanhar até a uma sala para falarmos. Por esta altura já a maior parte dos familiares perceberam o que se passou. As mãos suam-me, o olhar meio vago. Nunca sei como começar esta conversa, ir directo ou com rodeios.

[O seu pai estava muito mal. Nunca o conseguimos estabilizar.]

[Tinha vindo a piorar há alguns dias.]

O pior é quando a idade era pouca. Ou quando não era esperado, quando ele até era saudável. A imprevisibilidade da situação. O inesperado.

O que se segue não pode ser previsto. Já vi indiferença, raiva, pânico. Já vi compreensão, alívio. Nunca é igual. Já abraçei desconhecidos, já os confortei. Já ouvi berrarem-me aos ouvidos contra mim, contra os médicos, contra o hospital. Já os deixei libertar toda a raiva. Já lhes dei copinhos de água com açúcar, ou com diazepam.

Só sei que nunca me vou habituar.

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11 comentários

Filed under história clínica

11 responses to “[história clínica] nunca me vou habituar

  1. Também já me calhou essa tarefa…
    Na verdade, acho que nunca se sabe bem o que dizer se bem que, na maioria dos casos o discurso preparatório é já, ele próprio bem explícito. Enfim, ossos do ofício…

  2. Tiago

    Sim, deve ser mesmo muito difícil… E exige, com certeza, um controlo acima de tudo sobre nós próprios e muita coragem… Força!

  3. maria ana

    Nunca se habitue, Senhor Doutor, mas defenda a sua sanidade mental…digo eu, que sou uma leiga!

  4. Se te habituasses, serias insensível.

    [É normal a febre não baixar muito com um benuron tomado às 16:30 da tarde? Acho que agora que ja tomei o antibiótico ainda me estou a sentir pior…]

  5. rosemary

    Deve ser terrível. Não acho que seja possível alguém habituar-se a isso, provavelmente com o tempo acabam por saber melhor como falar com os familiares e prever a sua reacção, mas habituar não me parece…

  6. Ana

    Deve ser mesmo complicado… não consigo imaginar-me a fazê-lo! Vou rir? Chorar? Ficar sem palavras? O que esperar das pessoas?
    É uma das tarefas mais difíceis de um médico, mas fundamental para levar até ao fim a relação médico-doente.

  7. eu estou-me a rir…hoje morreu-me o meu primeiro doente…e fui eu que disse à familia e… ao médico…e não foi fácil…dizer a nenhum deles…

  8. Nunca é fácil nomear a morte. Nomear a morte do outro [mesmo um outro que não seja do nosso campo de afectos], é entrarmos dentro, muito dentro, de nós mesmos. É confrontarmo-nos com a inevitabilidade da perda, do desaparecimento.

    Desconfortável, esse papel de Hermes…

  9. Nunca nos habituaremos a ela, mas é a única coisa que temos verdadeiramente garantida…

  10. A parte pior da saúde (e da vida) deve ser dar a notícia da morte. Nem se habituam os médicos, nem os familiares. No confronto directo, a morte ganha quase sempre. Resta-nos as histórias em que a vida (e a medicina) vençe a morte.

  11. MARIA

    Dr por favor lhe peço,nunca perca essa sensibilidade,seja ela vinda da sua juventude ou do seu modo de ser!!Nesses 40 dias que acompanho meu pai no Hosp de Cascais,17 foram passados nas Urgências,e vi um médico,um SR DR,dar a notícia a uma senhora de 70 anos,que o marido havia morrido,em pé ao lado de uma lata de lixo no meio das Urgências!!Não perguntou e ela estava acompanhada,simplesmente deu a notícia!!Eu acompanhei a Sra para rua,liguei para os filhos,dei agua,conversei,e esse SR DR foi a sua vida,sem se importar com aquela sra,que era cardíaca e podia morrer ali naquele instante!!Ninguém me contou,eu presenciei!!SEJA HUMANO SEMPRE,NUNCA PERCA ESSA CAPACIDADE!!!

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