[história clínica] trinta e nove e meio

“Minha senhora, se não quer levar a sua mãe para casa, por mim tudo bem. Juro que não me chateio. Eu, que sou médico, acho tenho a certeza que ela está bem. E, sejamos honestos, assim que a sua mãe tiver alta, põem-me cá outra doente vinda da urgência. É certinho. E tenho que começar tudo de novo numa doente que nem sequer conheço. Agora, peço-lhe uma coisa. Pela sua saúde, não traga a merda do termómetro de casa, e não o ponha em cima do radiador da enfemaria ou dentro do chá da sua mãe, nem me venha exibir o mostrador em frente dos olhos

[trinta e nove e meio, doutor… está a arder em febre, não lhe vai dar alta assim, pois não]

porque a enfermeira mediu agora mesmo a temperatura e tinha trinta e seis e quatro. E, pela sua saúde, não faça um risco na fralda da sua mãe porque desconfia que as nossas auxiliares não a mudam. Garanto-lhe que é gente trabalhadora e o hospital não as poupa. E não me diga que ela não tinha escaras antes de vir para o hospital e que fazia a sua vidinha porque eu sei que não era assim. E acima de tudo, peço-lhe para não falar mal de mim nas minhas costas porque eu sei que o faz. E já agora, diga ao seu marido que não é bonito chamar arrogante e estúpido a ninguém, incluindo os médicos.”

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10 comentários

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10 responses to “[história clínica] trinta e nove e meio

  1. Lassalete

    Bolas, “gentinha simpática” aí na vizinhança, hein?
    Cruzes, credo!
    Muita força, doc! A “alcateia” ladra e uiva alto,
    mas… a caravana passa, certo?

  2. e consegue-se engolir isto tudo ou sai assim mesmo, em alto e bom som?

  3. uhm…que dizer da filha do doente da cama ypto que vem para o serviço às 7h30 da manhã, para dar uma de muito preocupada e dizer que se preocupa muito com o paizinho, que quando ela vira costas nos conta que foi para o lar porque em casa era maltrato pela querida e insuportável dona filha?

  4. Que pessoas tristes temos na nossa sociedade… se não dão valor (e admiração) aos seus velhotes, vão dá-lo a quem? Ilustres desconhecidos ou a si próprios? Os nossos velhotes são a nossa memória, enquanto eles cá andarem para contarem-nos as suas histórias de vida, a nossa vida fica mais rica! Saber que tivemos um tio-avô que era invetigador da PJ em meados do séc. XIX é notável e que dizer da avó que veio de Coimbra para Lisboa para trabalhar nos CTT em 1930! E do tio-avô que era escritor e do avô que esteve preso “à conta” do regime de salazar? Quem era eu, senão fossem eles?
    Há sempre histórias que devemos ouvir, principalmente se forem os nossos avós, pais a contar! É a nossa “memória” viva!

  5. inês

    A ponta do iceberg, que são às centenas os casos assim nos nossos hospitais onde as televisões entram apenas, quase sempre, para dizer mal dos que lá trabalham. Dos que ouvem pérolas como essa, dos que se sentem enxovalhados pelos “utentes” agressivos e devidamente ensaiados para reclamar, dos que abandonam os velhos como coisas e depois reclamam sempre, e sempre, e sempre. Porque é que não se fazem reportagens destas pessoas assim?

  6. Andreia

    Nem por acaso, hoje o tema da grande reportagem da RTP1 foi mesmo esse! Realmente dá que pensar…

  7. Isto passou-se mesmo?
    Estou abismada! Como é que há filhos assim?

  8. Há filhos assim há! E esses filhos são também os paizinhos que andam na escola a fazerem queixas e acusações aos professores e aos funcionários, tantas vezes incoerentes ou infundadas. São também os que deixam as crianças na escola 9, 10 e 11h, que se queixam que as crianças não têm de comer os legumes a sopa ou o peixe porque não gostam, não senhor; que a escola não os alimenta como deve ser mas mandam-nos para lá sem tomarem o pequeno almoço; que a funcionária B não tomou conta da mala da criancinha; que lhe roubaram a play station que lhes custou os olhos da cara…

    Não sei o que vai acontecer a estes pais quando forem, daqui a 25 anos, velhos também. Para mim, não nada de bom!

  9. MARIA

    Acredito que exista pessoas assim,filhos desumanos e mentirosos!!Mas quando isso tudo é realmente verdade!!Quando uma medica quer enviar um paciente(91 anos) para casa com febre real,de 39 graus!!Quando vai dizer a Assist Social que essa filha,que vai ao Hosp todos os dias(a 40 dias),que tem tudo preparado para a sua volta,inclusive AMOR E CARINHO,que lutou para que fosse ouvida,chorou,implorou,pediu,e finalmente fizeram uma junta medica ao seu redor,fizeram mais analises e exames,E RETIRARAM A SUA ALTA!!!ESTOU FALANDO DE UM HOMEM(MEU PAI),COM 91 ANOS,DEBILITADO, E COM FEBRE REAL,E QUE O ESTAVAM TRATANDO COMO UM NADA!!!
    Pode não ter sido o seu caso Dr,mas NÃO SE ESQUEÇAM QUE EXISTE SEMPRE UMA HISTORIA REAL!!!Obrigada

  10. meu Deus…e é possivel aturar isso?

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