[exame objectivo] livrário

Sempre tive uma relação muito boa com os livros. Em criança era um desses devoradores de páginas de pernas cruzadas em cima da cama ou cabeça encostada ao braço do sofá. Nunca saía de casa sem um livro, fosse para férias, fosse para ir ao supermercado com os meus pais. Aproveitava todos os períodos mortos para avançar umas páginas.

Desde que sou médico, sinto-me a embrutecer. Os dias de banco e os dias a seguir não me deixam ler. Nos outros dias adormeço ao fim de uns míseros parágrafos. Os capítulos arrastam-se, os livros eternizam-se na mesa de cabeceira. Tenho que voltar atrás para me situar na história. E isto desgosta-me.

Queria prometer que vou passar a ler um livro por mês. Para mim, é o mínimo admissível. Quando me ponho a pensar na quantidade de livros que não vou ler na minha vida, angustio-me. Tenho que recuperar o tempo perdido.

Starting now.

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12 comentários

Filed under exame objectivo

12 responses to “[exame objectivo] livrário

  1. partilho a mesma angustia… O meu tempo para a literatura não especifica da minha profissão vai reduzindo drasticamente desde o momento em que entrei na universidade…

  2. Ana Babinsky

    Sinto precisamente o mesmo. Desde que entrei para a faculdade as minhas leituras perdem-se em livros técnicos que por demais interessantes não nos levam para locais inalcansáveis, não revelam odores diferentes, nem nos fazem descobrir histórias de amor e de guerra…
    Mas também eu já tomei medidas que passaram pelo empilhamento dos livros na mesa de cabeceira q quero ler este ano sem falta… Ali, todas as noites a tentarem intimidar-me e só com vergonha consigo olhar p o lado e ignorá-los mais uma vez. São 6… Ainda nenhum saiu de lá, mas juro que já vou lendo alguma coisa!! Pior é o sentimento de que para recomeçar este hábito os livros a agora escolher deverão ser como por exemplo o Perfume… De capítulos curtos para sentir que embora pouco consegui avançar 🙂

  3. inês

    A minha filha diz que nunca iria para medicina porque os médicos não têm vida para além da medicina. Se é verdade que a medicina faz de nós pessoas diferentes de todas as outras (mais lúcidas, pelo menos…), também é verdade que isso se paga caro. E um dos preços são os livros que não se chegam a ler. Eu tenho uma lista interminável deles…e faz-me pena. Como me faz pena consumir dias e noites no hospital e sair de lá esgotada. Sugada por “dementors” que nos gastam as energias todas e nos deixam de rastos e horários que mais ninguém pratica mas convenientemente desvalorizados (60 h por semana, quem mais faz?). Incapaz de tolerar depois as aberturas de telejornais com casos de “negligência médica” e gente devidamente ensaiada por políticos e jornalistas a denegrirem o nosso esforço. São 20 anos disto, já. Faz mal à alma…

  4. Como te entendo… Não sou médica, mas escrevo e durante os meses que estou envolvida num projecto de ficção, não consigo simplesmente terminar nenhum livro. Tenho o mesmo livro na mesinha de cabeceira há dois meses e de cada vez que olho para ele penso que tenho que lhe pegar, mas a minha disponibilidade mental e física nunca me deixa.
    ps. Passa lá no meu espaço e vê se te sentes desafiado…

  5. undutchablegirl

    Mais do que angústia sinto uma culpa gigante por não dar despacho às minhas leituras como gostaria. Infelizmente há sempre prioridades que nos levam a um adiar constante das páginas que, de tanto esperar, gritam por nós. O ideal seria haver dias com muito mais que 24 horas.

  6. Agora fizeram-me sentir culpada… tenho 3 livrinhos na estante e pelo menos 3 manhãs livres por semana…
    O meu problema é arranjar espaço para os livros que já li e os que quero ler! São tantos, tantos que já lhes perdia a conta… Preciso de uma casa maior! Urgente!!
    Acho que vou começar a ler um em breve, senão por mim… por vocês!

  7. L.

    Desde que comecei o estágio, só tinha algum tempo para ler enquanto esperava que a minha colega chegasse. Agora que tenho chave, perdi esses momentos preciosos que me alegravam o inicio do dia.
    As horas de almoço passam a correr, e como trago o carro (não há hipótese de transportes públicos, por aqui) pouco tempo tenho para ler.
    Os livros perduram tempo de mais (para o meu gosto) em cima da mesa de cabeceira… preciso de ler para me sentir eu novamente.

  8. Para ler é preciso ter disponibilidade psicológica para isso. Além disso, acaba por ser uma tarefa solitária.
    Uma vida profissional activa, marido e filhos deixam pouco espaço para isso.

  9. LB

    Olá!!! Já ando para escrever qualquer coisa há imenso tempo, mas vem-me a preguiça… Fiquei leitora assídua do teu blog!
    Como te compreendo… A quantidade de livros que compro para ler e nem pego ou deixo a meio… Também tenho esses momentos em que acho que é sempre possível conjugar tudo e “fazer mais” de tudo o que gosto. Mas como conjugá-las com as outras promessas de que “vou atinar e estudar mais e ser melhor médica”?
    O tempo não é infinito… Mas devia ser.

  10. Tb adoro ler. Neste momento… Travessuras de menina má… oferta de uma amiga que adorou! Ainda estou no início para avaliar, mas promete!
    http://www.sunshine.blogs.sapo.pt

  11. Partilho o embrutecimento….

  12. Este blog é a prova viva, pela qualidade da escrita, de que é um bom leitor!…

    Gostei de “andar por aqui”…

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