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[história clínica] o pior de tudo

O pior de tudo é quando a vida acaba aos poucos, como eu vejo por aqui todos os dias. Mais uma infecção, mais um avc, mais antibiótico, mais um tac. Mais alguma coisa que não leva a lado nenhum. Nenhum.

O pior de tudo é quando se desce um degrau de cada vez, e às vezes a escadaria é enorme. Mais uma escara que não fecha, mais um braço que não mexe, mais uma boca que fica ao lado, mais um filho que não se reconhece.

O pior de tudo é assistir a tudo isto. Caras que se conhecem de bancos passados, caras que voltamos a ver, mais enrugadas, mais suplicantes, mais noutro lado que não aqui, connosco.

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[história clínica] vai um copo, amigo?…

Tinha 50 e poucos anos. Andava deprimido, refugiava-se no tabaco e no sofá da sala. A barba andava muitas vezes por fazer. Já nem a neta, a mais nova, lhe trazia o brilho nos olhos de há poucos, pouquíssimos meses atrás.

Um dia caiu no chão, no chão da sua casa de banho. Pesado, imóvel. Trazido em aflição até ao nosso hospital, deu entrada num dia em que estava de urgência. Tensão arterial altíssima, respiração ruidosa, um braço a cair muito mais rapidamente que o outro, pupilas sem simetria. Só podia ser um acidente vascular cerebral, pensámos nós.

Fez-se TAC, veio a confirmação. Dentro da cabeça, uma inundação de sangue. Lembro-me de falar com aquela família e prepará-los para o pior. Não, a recuperação não vai ser fácil. Sim, ele pode morrer. Não, ele não pode ser operado. Vi a tristeza acumular-se, vi os olhos embaciarem-se. O avô, o pai, o marido não voltaria a ser o mesmo.

Fiquei com esse doente na enfermaria. Todos os dias aquela família vinha à visita. Todos os dias queriam uma palavra minha. Infelizmente, as minhas palavras não traziam uma pinga de esperança. Não podiam trazer. A cada dia que passava, a situação piorava. Febre, e mais febre e mais febre. Febre que não baixava com nada. 39º, 40º 41º. Respiração cada vez mais forçada, num esforço inglório para manter-se vivo.

Acabou por morrer. Morreu numa noite em que eu não estava presente. No dia seguinte, a família voltou à hora da visita. Estavam de luto e com dois embrulhos na mão. Um era para mim. Uma garrafa de whisky, a marca preferida do doente. Disse-me a filha que o pai era a pessoa mais generosa do mundo, e que se me tivesse conhecido, queria ter tomado um copo comigo. Para os enfermeiros e auxiliares, uma caixa de chocolates, pelo carinho daqueles dias.

E depois embaciaram os meus olhos. Ainda tenho a garrafa. Guardada. Ainda vou tomar um copo consigo, amigo.

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[história clínica] supermodel of the (old) world

Tenho uma doente de 87 anos que estava no cabeleireiro quando sofreu um AVC. E diz que quando engorda 1 Kg, faz dieta. Ela tem, no máximo, 50 Kg. É a minha supermodel of the old world.

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[parâmetros vitais] lista de coisas que não existem em medicina apesar de serem ditas por muita gente (i)

Princípio de AVC.

Não existe. Ou se teve um acidente vascular cerebral ou não. O que existe é o acidente isquémico transitório, (AIT) termo que se aplica quando os défices neurológicos regridem nas primeiras 24 horas após a sua instalação.

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