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[história clínica] heartbeats

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Mais um enfarte ontem à noite. A horas impróprias. Sempre achei que a minha equipa de banco tinha sorte nas noites, mas estas duas últimas começam-me a fazer pensar o contrário. Ultimamente, as noites têm sido um estado de sítio de doentes graves, a uma hora a que a cabeça já não funciona tão bem.

Era meia-noite e meia. Entrou um homem de 65 anos com cara de enfarte. Existe a cara de enfarte. Acinzentado, suado, muito ansioso, um certo esgar de pânico, mão no peito. Às vezes, quase nem é preciso fazer o electrocardiograma para ter o diagnóstico. Só veio confirmar.

Nem telefonei para o Hospital de Santa Cruz. Estou farto de ser insultado de madrugada. Transferi o doente para a cardiologia de Santa Marta. É a eles que eu gosto de entregar os meus doentes. Tratam-me bem, de sorriso aberto, sem críticas injustas, infundadas.

Regressei já de madrugada. Na ambulância, de pés pendurados em cima da maca, a ver a cidade já adormecida, a auto-estrada deserta. O dever cumprido.

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[história clínica] 3 horas de saturday night fever

Tudo estava calmo. Até disse que me ia encostar um bocadinho. Eram 2 horas da manhã. Deitado na frieza dos nossos quartos, ainda me apeteceu ler mais um par de páginas da Morte de Carlos Gardel (que começei a devorar nas férias mas que agora mastigo, não porque não esteja a gostar mas porque o trabalho não deixa). Mas rapidamente adormeci.

2:20 Toca o telefone. Homem de 54 anos com um enfarte, dizem-me. Subo as escadas (descansamos na cave) ainda adormecido e vou direito ao balcão de homens. Pálido, suado, a agonia da dor estampada nele todo. O electrocardiograma também não deixava dúvidas. Dou as ordens. O doente vem para SO. Duas veias canalizadas. Isto e mais isto de terapêutica. Morfina para aliviar a dor. Oxigénio. Chamem a técnica de análises para tirar sangue. Pensa rápido, não te esqueças de nada, por favor. O homem não responde, não fala. Chamo a família para saber o que se tinha passado. Fumava demais, bebia demais, não queria saber dos médicos, nem queria ouvir falar em comprimidos.

3:00 Tinha que ligar para Santa Cruz. Este homem tem que fazer coronariografia já. Peço a chamada à telefonista. Quando estou à espera que me chamem o cardiologista, oiço um grito: paragem. Desligo o telefone na cara do cardiologista. Levanto-me rapidamente a correr para o meu doente. Mas não era esse que estava em paragem cardio-respiratória. Era um velhote em frente a ele. Murro precordial. Laringoscópio, tubo 7 e meio. O tubo entra logo nas goelas e começa-se a fazer massagem cardíaca. 3 mg de atropina, 1 mg de adrenalina, gluconato de cálcio. 5 minutos e nada. Roxo, inerte.

Doutor, o doente do enfarte não tem tensões. OK, chamem um colega meu. Sinto a vergonha de ter que chamar a minha tutora. 2 braços não chegavam para isto. Ela toma conta do enfarte, eu continuo a tentar reanimar um morto. Ela inicia dobutamina, gelofundina para aumentar as tensões. Eu já não sinto os braços. O velho já não tem costelas inteiras. Crack crack (som horroroso). Quanto tempo mais insistimos? Quanto tempo? 25 minutos e nada. Desiste-se. Ninguém diz time of death como nos filmes mas sabe-se que acabou ali.

4:00 Em Santa Cruz recebem-nos o doente. Pedimos uma ambulância urgente. Num ápice estou dentro da ambulância com o enfartado. Que frio que está às 4 da manhã. Faço a viagem sempre com um doente hipotenso, de olhos pregados no monitor. Tudo à nossa espera em Carnaxide. Inevitável o sermãozinho. Nunca vi gajos tão emproados como naquele hospital. Donos da verdade absoluta, criticam tudo. A terapêutica isto e aquilo, o doente aqueloutro. Um tipo com ar emproado, óculos de mergulhador e um barrete ridículo. Aceno com a cabeça (só me quero ir embora), claro doutor, pois sim.

4:45 Estou de volta a Cascais. O sono desapareceu. Tudo está calmo neste serviço de urgência. Sento-me no computador para vos escrever.

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