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[terapêutica] notas de alta e de música

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Nestas tardes, em que vou ficando pela enfermaria, o melhor acto terapêutico é juntar os relatórios e notas de alta que tenho que fazer ao som debitado pelo iPod. Neste momento, Anthony & the Johnsons e um avc coabitam em perfeita simbiose.

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[história clínica] trinta e nove e meio

“Minha senhora, se não quer levar a sua mãe para casa, por mim tudo bem. Juro que não me chateio. Eu, que sou médico, acho tenho a certeza que ela está bem. E, sejamos honestos, assim que a sua mãe tiver alta, põem-me cá outra doente vinda da urgência. É certinho. E tenho que começar tudo de novo numa doente que nem sequer conheço. Agora, peço-lhe uma coisa. Pela sua saúde, não traga a merda do termómetro de casa, e não o ponha em cima do radiador da enfemaria ou dentro do chá da sua mãe, nem me venha exibir o mostrador em frente dos olhos

[trinta e nove e meio, doutor… está a arder em febre, não lhe vai dar alta assim, pois não]

porque a enfermeira mediu agora mesmo a temperatura e tinha trinta e seis e quatro. E, pela sua saúde, não faça um risco na fralda da sua mãe porque desconfia que as nossas auxiliares não a mudam. Garanto-lhe que é gente trabalhadora e o hospital não as poupa. E não me diga que ela não tinha escaras antes de vir para o hospital e que fazia a sua vidinha porque eu sei que não era assim. E acima de tudo, peço-lhe para não falar mal de mim nas minhas costas porque eu sei que o faz. E já agora, diga ao seu marido que não é bonito chamar arrogante e estúpido a ninguém, incluindo os médicos.”

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[momento lexotan] desesperos

Ontem vi o desepero nos olhos de um doente. Tinha estado cinco dias numa maca na urgência, ao lado de 60 outros doentes. Estava lúcido. Foi finalmente para a enfermaria, para um ambiente sossegado, contrastando com o caos da urgência.

Mas por engano, mandaram-no para uma cama que já estava ocupada. Tinha que voltar para o caos. Não se esquece a reacção do homem.

Deixem-me ficar aqui. Eu fico em qualquer cantinho.

Mas só há uma cama de mulheres, senhor João.

Eu não me importo. Eu juro que não me importo.

Não pode ser. Desculpe.

Então deixem-me ficar aqui só um bocadinho.

E ficou. Ali juntinho à árvore de Natal do serviço, sentado, inconsolável, a tentar que nos esquecessemos que tinha que voltar para o inferno da urgência.

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