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[história clínica] a voz da razão

O reverso da medalha. Já foi há uns meses. Estava de urgência e tinha uma doente de 70 anos, mais coisa menos coisa, internada. Sinceramente, já não me lembro da razão do internamento. Lembro-me sim que estava desorientada. Agressiva, agitada. Tentava arrancar os soros, o oxigénio. Estava melhor de tudo o resto mas persistia o desatino. Disse isto mesmo à filha, na hora da visita. Que estava tudo a correr bem mas que não encontrava uma causa para o estado dela. Disse que íamos continuar a investigar. Uma punção lombar talvez. Uma TAC. Nessa altura, a voz da razão veio do lado de lá.

Doutor, a minha mãe está assim porque está farta de estar aqui na urgência numa maca. Mais do que desorientada, está revoltada. Deixe-me levá-la para casa, se diz que o resto está melhor. Deixe-me tirá-la daqui e se calhar as coisas melhoram.

Mas eu não lhe posso dar alta assim, compreende? Temos que perceber qual a causa desta agitação.

Eu assumo a responsabilidade.

E lá fui eu buscar o infame impresso de alta a pedido do doente barra familiar. Esse documento que atira as culpas para outro que não o médico se as coisas correrem mal.

[como me entristece esta medicina de defesa cerrada, mais as queixas, os processos e a pele-salva]

A doente foi. E voltou 4 dias depois. De braço dado com a filha. Voltou para se mostrar, para mostrar que estava lúcida, de perfeito juízo. Voltou para pedir desculpa pelo comportamento que tinha tido. E para me dar umas lições de medicina.

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[momento lexotan] countdown

Faltam 24 horas, mais coisa menos coisa. Não, não é para 2009. É para eu sair do hospital.

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[momento lexotan] vou ser como tu

És velho. Estás velho. Já viveste, já viveste muito. Lembras-te de tudo na década de 40, lembras-te o que disseste à tua mulher no dia em que a pediste em casamento, lembras-te do sorriso dela. Mas não te lembras de tomar os comprimidos nunca. Nem te lembras de mim que te vi ontem e que te disse que estavas melhor.

[O senhor saia da minha casa, por favor. O senhor é médico ou enfermeiro? Chame a minha mãe, preciso de a ver. Alice, vem cá. Olha quem está aqui.]

Tens os ossos descarnados. A clavícula, um promontório que circunda o pescoço. As pernas, essas mesmo que calcorrearam quilómetros, que lavraram hectares, estão magras, um fio de azeite daquilo que eram. Consigo ver todas as tuas costelas. A tua barriga é um buraco, um fundo buraco. Tens a fralda suja, tens a boca seca. Tens os olhos baços e o peito arfa por mais um pouco de oxigénio. E sou eu que te quero salvar. Sou eu que te quero a viver por mais uns meses, para que possas procurar o sorriso da tua mulher, para que possas voltar aos teus álbuns de música, esses que tresandam a mofo lá no lar.

Será assim que serei um dia? Será que o meu fim é isto mesmo, assim como eu vejo? Às vezes, tenho medo. Sempre que vos ausculto tenho medo. Medo dos hospitais. Não estes, mas os de daqui a 50 anos, quando já não for médico, quando for apenas um de vós. Tenho medo de gritar que sou médico e ninguém acreditar. Chamar pela minha família e ela não estar. Apenas um ser de azul a mudar-me a fralda

[não toque aí, por favor…]

e dois de branco e estetoscópio ao pescoço com ar de enfado.

[levem o velho lá para dentro]

Sou médico. Fui médico, rapazinho, tratem-me bem, se faz favor.

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[momento lexotan] a morte

No passado, os doentes terminais morriam em casa. Era essa a cultura vigente. Os doentes e as famílias aceitavam que o fim se aproximava, resignavam-se. Preferiam morrer acompanhados, velados pelo seu mundo, em paz.

Hoje em dia, ninguém morre em casa. Os doentes são trazidos para o hospital para morrerem. Assistimos diariamente a esta realidade. Esta dura realidade. 90 anos, 95 anos. Neoplasias, metástases. Dor, agonia, magreza, escaras. Nada a fazer senão aliviar a dor, oxigenar, hidratar.

Os doentes no hospital morrem numa maca. Durante a noite, muitas vezes sem ninguém por perto, sem ninguém a quem dar a mão. Morrem a olhar para paredes brancas, assépticas. Morrem sem perceberem onde estão, para onde os levaram.

Quando a minha vez chegar, eu quero morrer em casa. Eu quero sentir a mão de quem gosta de mim. Não quero que me piquem um braço, não quero sentir soro a correr, não quero ser algaliado, não quero comer por uma sonda. Quero reconhecer as paredes à minha volta, a minha mesa de cabeceira e os meus lençóis. Ver fotografias nossas nas molduras, objectos de uma vida cheia, feliz.

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[momento lexotan] irritações

Porque raio é que eu me irrito tanto quando os familiares não levam os meus doentes quando eles têm alta?

Tenho menos trabalho porque põem-me lá outro doente que eu não conheço. Se o doente não é levado pela situação social, quer dizer que está curado. Só vantagens.

Tenho que trabalhar neste aspecto. Tentar não gritar a frase “Isto é um hospital, não um hotel!” ou “Quando o seu pai estava na Urgência, a senhora também queria que ele tivesse uma caminha na enfermaria, não era?“.

Tentar manter o lado zen da vida.

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