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[história clínica] trinta e nove e meio

“Minha senhora, se não quer levar a sua mãe para casa, por mim tudo bem. Juro que não me chateio. Eu, que sou médico, acho tenho a certeza que ela está bem. E, sejamos honestos, assim que a sua mãe tiver alta, põem-me cá outra doente vinda da urgência. É certinho. E tenho que começar tudo de novo numa doente que nem sequer conheço. Agora, peço-lhe uma coisa. Pela sua saúde, não traga a merda do termómetro de casa, e não o ponha em cima do radiador da enfemaria ou dentro do chá da sua mãe, nem me venha exibir o mostrador em frente dos olhos

[trinta e nove e meio, doutor… está a arder em febre, não lhe vai dar alta assim, pois não]

porque a enfermeira mediu agora mesmo a temperatura e tinha trinta e seis e quatro. E, pela sua saúde, não faça um risco na fralda da sua mãe porque desconfia que as nossas auxiliares não a mudam. Garanto-lhe que é gente trabalhadora e o hospital não as poupa. E não me diga que ela não tinha escaras antes de vir para o hospital e que fazia a sua vidinha porque eu sei que não era assim. E acima de tudo, peço-lhe para não falar mal de mim nas minhas costas porque eu sei que o faz. E já agora, diga ao seu marido que não é bonito chamar arrogante e estúpido a ninguém, incluindo os médicos.”

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[história clínica] nunca me vou habituar

Tenho medo de dar a notícia da morte. Fico nervoso. Nunca sei o que esperar do outro lado. Tenho medo de ter vontade de rir, porque quando estou nervoso dá-me para isso. Tenho medo que me não saiam as palavras certas, as palavras adequadas.

[Está ali a família do senhor que morreu, doutor. Eles ainda não sabem de nada.]

Nunca sei se me vão acusar de não ter feito tudo o que devia. Se me vão apontar o dedo à minha capacidade profissional, à minha juventude. Nunca sei se querem conforto ou distância.

Respiro fundo e aproximo-me com uma cara fechada. Cumprimento as pessoas e pergunto-lhes se me querem acompanhar até a uma sala para falarmos. Por esta altura já a maior parte dos familiares perceberam o que se passou. As mãos suam-me, o olhar meio vago. Nunca sei como começar esta conversa, ir directo ou com rodeios.

[O seu pai estava muito mal. Nunca o conseguimos estabilizar.]

[Tinha vindo a piorar há alguns dias.]

O pior é quando a idade era pouca. Ou quando não era esperado, quando ele até era saudável. A imprevisibilidade da situação. O inesperado.

O que se segue não pode ser previsto. Já vi indiferença, raiva, pânico. Já vi compreensão, alívio. Nunca é igual. Já abraçei desconhecidos, já os confortei. Já ouvi berrarem-me aos ouvidos contra mim, contra os médicos, contra o hospital. Já os deixei libertar toda a raiva. Já lhes dei copinhos de água com açúcar, ou com diazepam.

Só sei que nunca me vou habituar.

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[momento lexotan] até já

Os hospitais não sabem segurar os seus valores. Formam médicos, investem cinco anos na sua especialização e depois deixam-nos ir.

Vem isto a propósito de uma colega minha que se despediu hoje do hospital. Dez anos depois de ter entrado, milhares de horas de trabalho depois, de noites, de bancos, de consultas, foi embora. Para longe. Porque o nosso hospital não lhe fez nenhuma proposta para ficar. Porque a vida não se faz de incertezas.

E porque nestes anos, aprendi tanto com ela, porque fez pela minha formação aquilo que mais ninguém fez, porque me ensinou a ser mais médico, porque passámos centenas de horas a trabalhar lado a lado, porque nunca se negou a uma ajuda, a um conselho, só lhe posso agradecer e desejar felicidades.

Obrigado. Até já.

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[momento lexotan] give and take

O doente sabe sempre o nome do cirurgião que lhe tirou o tumor. E nunca sabe o do internista que o diagnosticou. Aceita-se. O internista dá a notícia para esquecer. O cirurgião protagoniza o dia para recordar. Compreende-se.

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[momento lexotan] i’m so tired

Ontem, mais 24 horas de banco. E mais um banco mau, mauzinho.

A tristeza de entrar no serviço de urgência às oito horas da manhã e ser rodeado por um cenário de inferno. Macas e mais macas. Doentes a respirar para cima de outros doentes. Senhoras ao lado de homens. Uma doente internada no chão porque as macas disponíveis tinham acabado. Demorámos uma eternidade a passar o banco. A passagem de banco é o momento em que a equipa que está a sair passa à equipa que entra todas as informações relativas aos doentes que se encontram internados.

Depois vem o pequeno-almoço. Um convívio curto entre as duas equipas. Também nesta altura a chefe de equipa divide os doentres internados por todos os elementos da equipa. Nove doentes a cada um. Nove é muito. É preciso falar com cada um deles, observá-los, fazer a folha de terapêutica para aquele dia, ver as análises e pedir os exames necessários. Nove vezes. Este processo é interrompido com pedidos de observação dos balcões, homens e mulheres, onde os médicos que fazem o atendimento inicial nos pedem a nossa opinião.

Acabei de ver os doentes da manhã a meio da tarde. E então começamos a internar os doentes que ficaram pendentes. Fazemos também as transferências para os serviços de doentes que já se encontram estáveis, isto se houver vagas. Tudo isto dura até ao jantar.

A partir deste momento, faz-se a diferença entre um banco bom e um banco mau. No banco bom, há internamentos pontuais, que se fazem com calma, com tempo para pensar. No banco mau, os internamentos acumulam-se até horas impróprias em que a cabeça tomba sobre os papéis, em que os bocejos são de minuto a minuto.

Ontem foi um banco mau. Ontem acabámos todos, desde internos a chefes, de avaliar doentes às 4 horas da manhã. Um doente em choque séptico deu-nos especial trabalho. Logo a seguir, um edema pulmonar agudo em que não conseguíamos baixar a tensão arterial de maneira nenhuma. Quando finalmente estendi as pernas, tocou imediatamente o telefone. Uma doente internada na pneumologia tinha caído ao tentar levantar-se e tinha a cara ferida. Subi três pisos para constatar que era mais aparato do que estragos.

Dormi duas horas e meia. Acordei com o despertador do telemóvel, desorientado. Demoro sempre a perceber onde estou, numa escuridão que não me parece a minha casa. Tempo ainda para uma reanimação, um velhote que tinha vomitado e engasgado, entrando em paragem respiratória. Resolveu-se.

Agora é a nossa vez de passar o banco à equipa que vem. É a nossa vez de parecer desgrenhados e pouco acordados, mesmo assim com um ar mais feliz do que os outros. Voltamos ao pequeno almoço e depois para a enfermaria. E esta é a parte que custa mais. Sentir que está a começar um novo dia, apesar de para nós já ser o segundo.

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[história clínica] heartbeats

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Mais um enfarte ontem à noite. A horas impróprias. Sempre achei que a minha equipa de banco tinha sorte nas noites, mas estas duas últimas começam-me a fazer pensar o contrário. Ultimamente, as noites têm sido um estado de sítio de doentes graves, a uma hora a que a cabeça já não funciona tão bem.

Era meia-noite e meia. Entrou um homem de 65 anos com cara de enfarte. Existe a cara de enfarte. Acinzentado, suado, muito ansioso, um certo esgar de pânico, mão no peito. Às vezes, quase nem é preciso fazer o electrocardiograma para ter o diagnóstico. Só veio confirmar.

Nem telefonei para o Hospital de Santa Cruz. Estou farto de ser insultado de madrugada. Transferi o doente para a cardiologia de Santa Marta. É a eles que eu gosto de entregar os meus doentes. Tratam-me bem, de sorriso aberto, sem críticas injustas, infundadas.

Regressei já de madrugada. Na ambulância, de pés pendurados em cima da maca, a ver a cidade já adormecida, a auto-estrada deserta. O dever cumprido.

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[história clínica] o menino dela

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Ontem, foi tarde de consulta. Sempre gostei da consulta, apesar de ser à sexta à tarde, o que não deixa de ser um grande aborrecimento.

Chamei uma doente, uma velhota simpática. Vou sempre chamar os doentes à sala de espera e vou a conversar com eles até ao gabinete. Eles adoram e eu também. É aquela parte em que eu pergunto pela família, pelos netos, pela horta… a parte social da consulta.

Esta doente trata-me por Meu Menino. Não trata por senhor doutor, nem por você. Meu menino. Ao princípio estranhei. 30 anos, barba, bata e estetoscópio, mas para aquela senhora eu sou o menino dela. Não consigo pensar numa manifestação maior de carinho. E sorrio por dentro. Como um menino…

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