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[história clínica] nunca me vou habituar

Tenho medo de dar a notícia da morte. Fico nervoso. Nunca sei o que esperar do outro lado. Tenho medo de ter vontade de rir, porque quando estou nervoso dá-me para isso. Tenho medo que me não saiam as palavras certas, as palavras adequadas.

[Está ali a família do senhor que morreu, doutor. Eles ainda não sabem de nada.]

Nunca sei se me vão acusar de não ter feito tudo o que devia. Se me vão apontar o dedo à minha capacidade profissional, à minha juventude. Nunca sei se querem conforto ou distância.

Respiro fundo e aproximo-me com uma cara fechada. Cumprimento as pessoas e pergunto-lhes se me querem acompanhar até a uma sala para falarmos. Por esta altura já a maior parte dos familiares perceberam o que se passou. As mãos suam-me, o olhar meio vago. Nunca sei como começar esta conversa, ir directo ou com rodeios.

[O seu pai estava muito mal. Nunca o conseguimos estabilizar.]

[Tinha vindo a piorar há alguns dias.]

O pior é quando a idade era pouca. Ou quando não era esperado, quando ele até era saudável. A imprevisibilidade da situação. O inesperado.

O que se segue não pode ser previsto. Já vi indiferença, raiva, pânico. Já vi compreensão, alívio. Nunca é igual. Já abraçei desconhecidos, já os confortei. Já ouvi berrarem-me aos ouvidos contra mim, contra os médicos, contra o hospital. Já os deixei libertar toda a raiva. Já lhes dei copinhos de água com açúcar, ou com diazepam.

Só sei que nunca me vou habituar.

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[história clínica] o pior de tudo

O pior de tudo é quando a vida acaba aos poucos, como eu vejo por aqui todos os dias. Mais uma infecção, mais um avc, mais antibiótico, mais um tac. Mais alguma coisa que não leva a lado nenhum. Nenhum.

O pior de tudo é quando se desce um degrau de cada vez, e às vezes a escadaria é enorme. Mais uma escara que não fecha, mais um braço que não mexe, mais uma boca que fica ao lado, mais um filho que não se reconhece.

O pior de tudo é assistir a tudo isto. Caras que se conhecem de bancos passados, caras que voltamos a ver, mais enrugadas, mais suplicantes, mais noutro lado que não aqui, connosco.

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[exame objectivo] seremos nada

Sobre a morte. Penso no que somos depois de não sermos. Começamos por ser uma memória viva nos que connosco estiveram e passaram os dias. Quando esses também deixarem de ser, passamos a ser apenas uma fotografia na parede ou numa moldura.

[aquele era o teu bisavô, tu nunca chegaste a conhecer]

Depois disso, somos nada, somos o esquecimento. Somos um que esteve cá e nada deixou. E isso, às vezes, preocupa-me.

Post ligeiramente inspirado numa passagem de Vergílio Ferreira que li há uns anos e que desde então nunca mais consegui esquecer.

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[momento lexotan] a morte

No passado, os doentes terminais morriam em casa. Era essa a cultura vigente. Os doentes e as famílias aceitavam que o fim se aproximava, resignavam-se. Preferiam morrer acompanhados, velados pelo seu mundo, em paz.

Hoje em dia, ninguém morre em casa. Os doentes são trazidos para o hospital para morrerem. Assistimos diariamente a esta realidade. Esta dura realidade. 90 anos, 95 anos. Neoplasias, metástases. Dor, agonia, magreza, escaras. Nada a fazer senão aliviar a dor, oxigenar, hidratar.

Os doentes no hospital morrem numa maca. Durante a noite, muitas vezes sem ninguém por perto, sem ninguém a quem dar a mão. Morrem a olhar para paredes brancas, assépticas. Morrem sem perceberem onde estão, para onde os levaram.

Quando a minha vez chegar, eu quero morrer em casa. Eu quero sentir a mão de quem gosta de mim. Não quero que me piquem um braço, não quero sentir soro a correr, não quero ser algaliado, não quero comer por uma sonda. Quero reconhecer as paredes à minha volta, a minha mesa de cabeceira e os meus lençóis. Ver fotografias nossas nas molduras, objectos de uma vida cheia, feliz.

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