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[história clínica] as quatro vidas

São 3 da manhã e não há silêncio neste serviço de urgência. Continuamos por aqui a tentar resolver problemas, a tentar deixar tudo pronto para amanhã. Daqui a poucas horas vamos embora, para o banho, para o pequeno almoço, para casa.

Internei hoje uma senhora que vivia sozinha. Sem filhos, sem marido, apenas com uma vizinha por perto. Uma vizinha que desconfiou quando ela não atendeu o telefone uma vez. Duas vezes. As vezes suficientes para se perceber que alguma coisa se passava. Estava há dois dias caída no chão, sem reacção. Dois dias sem comer, sem beber.

Estava desidratada como poucas vezes vi uma desidratação. A frequência cardíaca demasiada baixa, as tensões impossíveis de medir. Vieram as análises e os valores estavam fora do que os livros dizem que pode ser compatível com a vida. Investimos em força. Era nova, era independente antes de tudo isto acontecer.

Sobreviveu à primeira paragem cardíaca. Sobreviveu à segunda e à terceira. Entubada, colocado catéter venoso central, fármacos em doses altas. Mas a instabilidade era constante. A quarta foi a última. Não podia mais, ela. Não podíamos mais, nós. O esforço físico e psicológico de quatro reanimações. Imenso.

Custa muito. Custa estar uma tarde inteira a tentar dar vida a uma doente e não ver nada. Ver uma doente cada vez mais doente, uma viva cada vez menos viva.

Ultimamente, os nossos bancos têm sido assim. Éramos uma equipa de urgência pacata. Mas ultimamente somos inundados pela gravidade dos doentes.

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[história clínica] depois da tempestade, as ondas

Ontem.

Um banco de 24 horas. Esta semana vou passar mais tempo no hospital do que gostaria. Vinte e quatro horas com adrenalina quanto baste. Quatro reanimações com a primeira a exigir muito de nós. Entubação, massagem cardíaca, desfibrilhação, mais massagem cardíaca, olhos pregados no monitor, dedos na carótida, acalmia. Em sucessão. A sensação de ter recuperado uma vida. O passar o dia de volta dele e dos outros, mas mais dele porque não queríamos deitar tudo por terra. Deixámo-lo vivo, entregue aos que entram.

Hoje.

De volta à enfermaria. A ver a chuva e as ondas, entre alguns dedos de conversa com os nossos doentes.

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[raio x] na urgência

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[história clínica] o bom e o mau

Vi-a mal na enfermaria. Tinha lá sido chamado para a observar porque tinha febre e estava prostrada. Diagnostiquei-lhe uma sépsis e foi começado antibiótico adequado. Dez dias depois, por coincidência, fui de novo chamado para a ver. Não porque estava mal, mas porque se achou que estava tão bem que já não precisava de toda aquela medicação.

Estava, de facto, muito bem. Conversava comigo, disse-me que não se lembrava de nada mas que sim, que estava óptima. Queria conversar e recuperar o tempo perdido. Retirou-se o catéter venoso central, parou-se o antibiótico, pensei que os meus colegas lhe iriam dar alta brevemente.

Mas o mal voltou. Desta vez, mais implacável. Em forma de choque séptico. Febre, tensões arteriais não mensuráveis, urina nada. A estaca zero. Tudo foi recomeçado. Os antibióticos, novo catéter, fármacos potentes. Disse a todos que aquela era uma doente que merecia tudo. Uma doente com toda a vontade de viver possível.

Morreu-me ontem, após uma hora de reanimação com direito a desfibrilhação, os meus braços a latejar e a testa coberta de suor. Foi tudo comigo, o bom e o mau. Tinha que se despedir ao pé de mim, também. E eu demorei-me a despedir dela. No silêncio da desistência de uma reanimação, demorei-me a olhar para ela.

Raras vezes uma morte me custou tanto. Agora vou para casa, depois de 24 horas na urgência. As últimas dela.

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[história clínica] um por todos…

Ontem vi um senhor com muita vontade de viver. E isso impressiona-me porque acho que, a determinado ponto, se torna bem mais fácil desistir.

Tinha sido internado há três dias. Entrou na urgência já em exaustão respiratória. Teve que ser entubado e ligado ao ventilador. Passou os dias que se seguiram a piorar. Pulmões, rins, fígado, foram vacilando naquelas horas. Um a um começaram a ser insuficientes para o esforço com que se deparavam. Teve duas paragens cardio-respiratórias ontem. As duas fugazes e com boa resposta à reanimação. E das duas vezes o homem acordou, a olhar para nós, com ar de surpresa. Perante seis pessoas a olhar para ele, só nos lembrávamos de dizer que estava tudo bem, que já tinha passado. E ele piscava os olhos, como quem agradece, ou como quem nos dá confiança.

Esteve sempre connosco, a perceber-nos, a deixar que lhe guiássemos a vida e a fuga à morte. Nunca se agitou, nunca protestou. A perfeita simbiose médico-doente.

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[momento lexotan] general inverno

Instala-se uma espécie de náusea na véspera de um banco onde sei, de antemão, que está o caos instalado. A mesma medicina de qualidade nula, a mesma correria sem sentido, os litros de soros e antibióticos com efeitos transitórios. As mesmas caras cansadas de quem sai. As mesmas caras tristes de quem entra. O inverno é um inimigo de rspeito. O general inverno. Já arrumou com o napoleão, já arrumou com o hitler e agora despacha a minha sanidade mental.

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[história clínica] a voz da razão

O reverso da medalha. Já foi há uns meses. Estava de urgência e tinha uma doente de 70 anos, mais coisa menos coisa, internada. Sinceramente, já não me lembro da razão do internamento. Lembro-me sim que estava desorientada. Agressiva, agitada. Tentava arrancar os soros, o oxigénio. Estava melhor de tudo o resto mas persistia o desatino. Disse isto mesmo à filha, na hora da visita. Que estava tudo a correr bem mas que não encontrava uma causa para o estado dela. Disse que íamos continuar a investigar. Uma punção lombar talvez. Uma TAC. Nessa altura, a voz da razão veio do lado de lá.

Doutor, a minha mãe está assim porque está farta de estar aqui na urgência numa maca. Mais do que desorientada, está revoltada. Deixe-me levá-la para casa, se diz que o resto está melhor. Deixe-me tirá-la daqui e se calhar as coisas melhoram.

Mas eu não lhe posso dar alta assim, compreende? Temos que perceber qual a causa desta agitação.

Eu assumo a responsabilidade.

E lá fui eu buscar o infame impresso de alta a pedido do doente barra familiar. Esse documento que atira as culpas para outro que não o médico se as coisas correrem mal.

[como me entristece esta medicina de defesa cerrada, mais as queixas, os processos e a pele-salva]

A doente foi. E voltou 4 dias depois. De braço dado com a filha. Voltou para se mostrar, para mostrar que estava lúcida, de perfeito juízo. Voltou para pedir desculpa pelo comportamento que tinha tido. E para me dar umas lições de medicina.

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