Tag Archives: velhice

[história clínica] na saúde e na doença

Sabemos que vemos o verdadeiro amor, aquele amor de bodas de prata a caminho do ouro, o amor dos bons e maus momentos, da saúde e da doença. Sabemos que o vemos quando o velhote a quem dizemos que a mulher irá ficar internada, quando esse velhote não se contém e rebenta num pranto incontrolável com os óculos embaciados e o lenço nas mãos. E dizemos que vai correr tudo bem e ele acena que sim a fungar como uma criança triste.

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[história clínica] o pior de tudo

O pior de tudo é quando a vida acaba aos poucos, como eu vejo por aqui todos os dias. Mais uma infecção, mais um avc, mais antibiótico, mais um tac. Mais alguma coisa que não leva a lado nenhum. Nenhum.

O pior de tudo é quando se desce um degrau de cada vez, e às vezes a escadaria é enorme. Mais uma escara que não fecha, mais um braço que não mexe, mais uma boca que fica ao lado, mais um filho que não se reconhece.

O pior de tudo é assistir a tudo isto. Caras que se conhecem de bancos passados, caras que voltamos a ver, mais enrugadas, mais suplicantes, mais noutro lado que não aqui, connosco.

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[momento lexotan] vou ser como tu

És velho. Estás velho. Já viveste, já viveste muito. Lembras-te de tudo na década de 40, lembras-te o que disseste à tua mulher no dia em que a pediste em casamento, lembras-te do sorriso dela. Mas não te lembras de tomar os comprimidos nunca. Nem te lembras de mim que te vi ontem e que te disse que estavas melhor.

[O senhor saia da minha casa, por favor. O senhor é médico ou enfermeiro? Chame a minha mãe, preciso de a ver. Alice, vem cá. Olha quem está aqui.]

Tens os ossos descarnados. A clavícula, um promontório que circunda o pescoço. As pernas, essas mesmo que calcorrearam quilómetros, que lavraram hectares, estão magras, um fio de azeite daquilo que eram. Consigo ver todas as tuas costelas. A tua barriga é um buraco, um fundo buraco. Tens a fralda suja, tens a boca seca. Tens os olhos baços e o peito arfa por mais um pouco de oxigénio. E sou eu que te quero salvar. Sou eu que te quero a viver por mais uns meses, para que possas procurar o sorriso da tua mulher, para que possas voltar aos teus álbuns de música, esses que tresandam a mofo lá no lar.

Será assim que serei um dia? Será que o meu fim é isto mesmo, assim como eu vejo? Às vezes, tenho medo. Sempre que vos ausculto tenho medo. Medo dos hospitais. Não estes, mas os de daqui a 50 anos, quando já não for médico, quando for apenas um de vós. Tenho medo de gritar que sou médico e ninguém acreditar. Chamar pela minha família e ela não estar. Apenas um ser de azul a mudar-me a fralda

[não toque aí, por favor…]

e dois de branco e estetoscópio ao pescoço com ar de enfado.

[levem o velho lá para dentro]

Sou médico. Fui médico, rapazinho, tratem-me bem, se faz favor.

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